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Evolução humana: passado e futuro - Entrevista com Walter Neves

por Mauro Bellesa - publicado 21/03/2025 10:40 - última modificação 21/03/2025 10:53

Entrevista com o paleoantropólogo Walter Neves para a série em vídeo 3por1.

Walter Neves - 3por1

Em entrevista[*] à série de vídeos 3por1, o biólogo, arqueólogo e antropólogo evolutivo Walter Neves comenta o caráter não progressivo da teoria evolucionista, a distinção cognitiva do Homo sapiens e a impossibilidade de máquinas serem seres simbólicos.

Desde 2018, Neves é professor sênior do IEA, onde coordena o Núcleo de Pesquisa e Disseminação em Evolução Humana (NPDEH). Ele foi professor titular do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da USP até 2017. Os estudos que realizou sobre o fóssil Luzia, um dos esqueletos mais antigos das Américas, tornaram-no presença frequente na mídia nacional e internacional.

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Entrevista

3por1 - Professor Walter Neves, como convencer o público que tem alguma informação sobre a evolução humana que evolução não significa aprimoramento?

WN - É uma tarefa dura, mas acho que a melhor maneira de convencer as pessoas de que evolução não é progresso é mostrar o quadro que a gente tem hoje da evolução humana como um todo, mostrando que várias linhagens de parentes evolutivos nossos se extinguiram ao longo da evolução da linhagem hominínia. E mesmo se você voltar há 30, 40 mil anos, você tinha pelo menos quatro espécies da nossa linhagem vivas no planeta e hoje tem uma só.

3por1 - Chamar apenas uma espécie como sapiens não é menosprezar em demasia as capacidades cognitivas de outras, como os neandertais e denisovanos?

WN - Olha, acho que não, pois o que nos distingue de todos os animais e também de todos os nossos antecessores (porque não necessariamente são ancestrais) é o fato de que o sapiens é o único em toda evolução hominínia que tem capacidade simbólica, que tem essa capacidade de atribuir significado às coisas, inclusive à vida, e nosso predecessores não tinham essa capacidade. Então, acho que isso é um salto qualitativo que permite perfeitamente nos distinguir das espécies que nos precederam.

3por1 - Se um dia as máquinas se equipararem ao ser humano poderão ser consideradas uma nova espécie derivada de nós?

WN - Eu acho que não, porque, por mais que você consiga com inteligência artificial criar coisas parecidas ou muito parecidas com o humano, você não conseguirá recriar ou criar essa condição que nós temos que é a questão do simbolismo, a questão da expressão simbólica, de atribuir significados às coisas e à vida. Então, acho que nunca um robô será capaz de olhar para o céu e perguntar: "De onde eu vim? O que é que eu estou fazendo aqui? Para onde eu vou?" Então, acho que isso é um limiar que não se conseguirá sobrepujar.

[*] Entrevista gravada em 11 de outubro de 2024 na sede do IEA.