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Quilombo Inteligente (QI)

por Rafael Borsanelli - publicado 29/01/2025 17:45 - última modificação 30/01/2025 13:49

Projeto selecionado na Chamada InnovPed da Agence Universitaire de la Francophonie

Coordenação: Gilson Schwartz (CTR-ECA e PPGHDL-FFLCH)
Vice-coordenação: Ranny Loureiro Xavier Nascimento Michalski (FAU e NUTAU)

O que é a Chamada InnovPed da AUF?

Link para inscrições
bit.ly/quilombointeligente

A Agência Universitária da Francofonia é a principal rede universitária do mundo, com mais de mil universidades e centros de pesquisa científica em quase 120 países. Criada em 1961, a AUF também é a operadora de ensino superior e pesquisa da Carta e da Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da Francofonia. Hoje, a AUF é uma organização que ajuda o desenvolvimento por meio do conhecimento. Sua principal missão é pensar globalmente sobre a Francofonia científica e agir regionalmente, respeitando a diversidade.

Respeitando a diversidade de culturas e idiomas, a AUF atua em prol de uma francofonia universitária comprometida com o desenvolvimento econômico, social e cultural das sociedades.

Em conformidade com a sua estratégia 2021-2025, a AUF Américas e a AUF Caribe apoiam o desenvolvimento de programas inovadores gerenciados pelas universidades que integram a rede a fim de contribuir para a melhoria da oferta pedagógica e acadêmica na francofonia científica e apoiar a cooperação acadêmica entre os países.

Os principais objetivos da Chamada InnovPed são:

  • Apoiar a criação ou o reforço de projetos universitários inovadores, tais como ciclos de orientação profissional de curta duração (máximo de um ano) que satisfaçam as prioridades de desenvolvimento das regiões, em consonância com os ODS da ONU e ofereçam oportunidades de profissionalização significativas,
  • Apoiar a cooperação acadêmica francófona entre os países das Américas e do Caribe como alavanca da inovação pedagógica.

Os projetos foram selecionados por uma Comissão Regional de Especialistas Econômicos e Científicos (CREES) das Américas e do Caribe.

O que é o Quilombo Inteligente (QI)?

Em maio de 2024, a Embaixada da França apoiou a realização do evento “Noite das Ideias” com o tema "Identidades x Inteligências: Artificiais", sob a coordenação de Gilson Schwartz, voltado ao questionamento de limites e possibilidades desses conceitos centrais no debate público contemporâneo.

Como definir “identidade” e quais os horizontes e riscos abertos pelo identitarismo na busca por diversidade, democracia e tolerância?

Quais os potenciais das diferentes definições de “inteligência” assim como os riscos associados à meritocracia, à elitização do acesso ao conhecimento e à exclusão sistêmica de cidadãos na sociedade do conhecimento?

Em que medida cada um desses conceitos e suas relações podem conduzir a novos modelos pedagógicos, de governança e sustentabilidade que tenham como apoio as tecnologias de informação e comunicação (TICs), ou seja, os artifícios da era digital?

Há inteligência artificial e também identidade artificial? Como, quem e com quais propósitos são desenvolvidas as identidades e inteligências num mundo em crise, em guerra e profundamente marcado pelo racismo e formas associadas de preconceito?

Ao assumir como denominação a expressão Quilombo Inteligente, propomos a orientação profissionalizante com base em projetos formulados por adolescentes e jovens com domínio das duas dimensões, aptos a conduzir projetos de apropriação de novas tecnologias digitais em favor de uma sociedade aberta, inclusiva e sustentável.

É possível um quilombo que não seja inteligente? É possível uma inteligência artificial que ignore ou tenha como pressuposto uma neutralidade frente às questões identitárias?

Ser ou não ser quilombo, eis a questão

O projeto Quilombo Inteligente está associado a um projeto selecionado pela Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP) da Universidade de São Paulo, selecionado em 2024 no Edital Direitos Humanos, que, ao longo do primeiro semestre de 2025, promoverá encontros, uma game jam e o compartilhamento de referências para o debate em torno da identidade “quilombola”.

O que é “quilombar”? Que autores trabalham com essa definição, que atividades ou atitudes marcam na sociedade brasileira o resgate de territórios, com reconhecimento de propriedade da terra e desenvolvimento econômico local?

Uma favela, uma aldeia indígena, uma comunidade tradicional revelam-se também como espaços de “quilombagem”? Que outras instituições, além dos muros universitários, podem colaborar nessa busca e afirmação de direitos humanos, identidades e perspectivas de inserção econômica e social?

Ser ou não ser um quilombo é um tema complexo, com diversas possibilidades criativas que serão elaboradas ao longo do processo de orientação profissionalizante por projetos na rede Quilombo Inteligente (QI).

Cronograma

Até 31 de março de 2025 estão abertas as inscrições para o processo seletivo das cem vagas oferecidas para orientação profissionalizante com base em projetos.

Além do IEA, vários núcleos de pesquisa e programas de pós-graduação da USP e de universidades parceiras participarão desse processo, além de instituições como o Museu das Favelas e redes internacionais como a Games for Change. Núcleos e Grupos de Pesquisa tais como Nutau (FAU), Diversitas (FFLCH) e Cidade do Conhecimento (ECA) serão espaços de mobilização e interação ao longo do projeto.

Para participar do processo seletivo, é preciso justificar o interesse e ter idade entre 14 e 24 anos. Serão prioridade as candidaturas associadas a movimentos sociais, coletivos, organizações sem fins lucrativos, escolas e outras entidades comprometidas com a ação social em territórios de vulnerabilidade social, ambiental e econômica (como favelas).

Entre abril e dezembro de 2025, os participantes serão orientados no desenvolvimento de projetos com ênfase na profissionalização de adolescentes e jovens para oportunidades na internet avançada (gamificação, inteligência artificial, internet das coisas, telefonia 6G, moedas digitais etc.).

O conteúdo das oficinas profissionalizantes será definido a partir do perfil dos candidatos selecionados, apurado ao longo do processo de inscrições por meio de questionários e atividades lúdicas (jogos e games, entrevistas e participação em grupos de discussão). É importante fazer a inscrição o quanto antes, para aproveitar ao máximo essas oportunidades de interação e definição de agendas profissionalizantes.

O processo seletivo é aberto a candidaturas de todo o Brasil. Serão garantidas vagas para candidaturas associadas a organizações atuantes nas favelas vizinhas aos campi Butantã e Leste da USP.

Objetivos

O principal objetivo da rede Quilombo Inteligente é promover uma reengenharia cognitiva na qual a população quilombola tome a iniciativa de definir práticas educacionais derivadas ou inspiradas nas tradições do movimento negro.

A solução de problemas com uso de internet avançada é o ponto central, ou seja, trata-se de envolver escolas e outras organizações numa dinâmica criativa e decolonial.

O processo oferecerá às comunidades quilombolas a oportunidade de criar, de forma colaborativa, materiais didáticos, recursos e práticas, em especial jogos e realidades imersivas (metaversos), com o objetivo de solucionar problemas étnicos, raciais, de gênero e ambientais.

Profissionais envolvidos em modelos decoloniais de produção audiovisual e trabalhando em um consórcio de universidades com parceiros não acadêmicos serão apoiados na criação de produtos, serviços e conteúdos relevantes.

A pedagogia digital decolonial com base na orientação profissionalizante a partir de projetos proporcionará formas inovadoras de aprendizagem emancipatórias e uma perspectiva crítica voltada ao multiletramento.

A proposta é ampliar a experiência de aprendizagem emancipatória sem renunciar às ferramentas tecnológicas mais avançadas, evitando a abordagem tradicional organizada em torno de cursos ou disciplinas específicas. A aprendizagem com base em projetos é interdisciplinar, eminentemente prática e com orientação profissionalizante.

A proposta se baseia em uma inversão das relações entre poder e tecnologia, mercados e demandas sociais e uma ruptura com o modelo colonial e hierárquico de produção de conhecimento, no qual o grupo social hegemônico domina os meios e as formas de desenvolver recursos, idiomas e práticas de ensino.

Trata-se também de identificar um novo leque de letramentos para as profissões do futuro, com foco na inserção no mercado de trabalho, onde os desafios do combate ao racismo, à violência de gênero e de aceleração dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável são prioritários no atual contexto de policrise sistêmica e climática.

Os repertórios criados serão integrados às práticas pedagógicas, bem como aos programas de pesquisa transdisciplinares das universidades envolvidas.

O resultado será um mapeamento de fronteiras para a criação de emprego, renda e empoderamento visando à inclusão social por meio do trabalho digital na economia criativa do Sul Global.

Orientação para a inserção profissional

A orientação profissionalizante com base em projetos será destinada a jovens quilombolas que estarão aptos a assumir funções auxiliares ou de liderança em projetos como produção cultural, gestão de transferência de tecnologia, gestão de mídias digitais, produção cultural, assistência à pesquisa qualitativa, gestão de empresas locais de turismo e serviços de apoio a iniciativas de proteção ambiental, promoção de direitos sociais e de direitos sociais, design de jogos e outros produtos audiovisuais (cinema, TV, música etc.).

As vagas certificadas pela USP oferecem ainda a perspectiva de integração após o ciclo de treinamento de 9 meses em eventos como o Festival Games for Change América Latina e outros eventos e serviços oferecidos por entidades locais.

Os participantes realizarão pesquisas para identificar demandas locais e apoiarão a criação de start-ups nos quilombos.

Os objetivos específicos incluem o incentivo ao desenvolvimento local como política de redução migratória de jovens para as grandes cidades, o alinhamento da orientação profissional com base em projetos aos objetivos de desenvolvimento sustentável, a promoção da inovação tecnológica e do espírito de empreendedorismo criativo no setor de turismo cultural e ambiental, bem como a renovação das práticas de ensino nas escolas e universidades parceiras.

Ancestralidade e inovação

O futuro é ancestral. Promover a integração das comunidades que foram historicamente afetadas pelo racismo e pela escravidão, reunindo a sabedoria tradicional com novas formas e ferramentas de produção de vida com mediação digital, combinar essa perspectiva com orientação profissional com base em projetos que tenha impacto na aceleração dos objetivos de desenvolvimento sustentável representam inovações não só do ponto de vista tecnológico, mas também de um em termos de empoderamento e emancipação social.

Estrutura temática da orientação profissionalizante com base em projetos

  1. Mapeamento dos problemas e desafios locais
  2. Pesquisa de referência (história, dados, biografias)
  3. Estudos de caso (internacionais)
  4. Estudos de caso (nacionais)
  5. Design Thinking
  6. Desenvolvimento de projetos
  7. Humanidades digitais, sustentabilidade e desenvolvimento local
  8. Ferramentas para criar e gerenciar projetos, empresas e start-ups
  9. As fronteiras da criação digital e audiovisual contemporânea
  10. Modelos de financiamento e monetização na era digital
  11. Formatação de projetos
  12. Implementação de projetos e redes de apoio

Participantes

Serão selecionados cem participantes, com idades entre 14 e 24 anos. A prioridade é para participantes vinculados a organizações sociais, coletivos e movimentos sociais atuantes em território identificado como quilombola.

Outras informações pedagógicas importantes

O leque de referências da rede Quilombo Inteligente inspira-se numa pedagogia de multiliteracias orientada para a convergência da transformação digital e das humanidades ambientais num horizonte decolonial. O QI é um projeto-piloto que inicia as atividades de desenvolvimento da plataforma Uaifai (Universos Abertos à Imaginação, à Fantasia e às Artes da Invenção), integrada por outros projetos de pesquisa, cultura e extensão, internacionalização e empreendedorismo.

As multiliteracias requerem uma perspetiva decolonial em dois aspectos fundamentais: um, de natureza epistêmica, refere-se à crítica ao conhecimento hegemônico para que a produção local de conhecimento seja trazida à tona em oposição às práticas de alfabetização baseadas no universalismo e na metodologização; o outro, de natureza tecnológica, refere-se à necessidade de dissociar o conceito de multiliteracias da sujeição inconsequente ao digital.

Link para inscrições: bit.ly/quilombointeligente